Por que lalelilolu?

O sonho

Sonhos são coisas realmente incríveis. Pois esse que eu estou prestes a te contar, além de me tranquilizar quanto à decisão de jogar pro alto cinco anos bem sucedidos da minha carreira como geóloga, ainda me presenteou com o nome da marca das minhas ilustrações. Rá! Isso é que é sonho, hein?

Então vamos a ele. E se você tá com tempo, aproveita também e vai lá buscar um cafezinho pra você tomar enquanto lê, vai. Eu te espero.

(sonho sonhado nas nossas férias de Setembro de 2010, no Brasil)

Não é que lá estava eu, sem filho nem marido, pegando o ônibus Vancouver – Contagem pra ir pra casa da minha mãe (é sonho, gente!), quando de repente olho pela janela e me dou conta de que o tal ônibus não andava… ele voava…

“Pois se esse ônibus, que é pesado pra burro, pode voar, porque não posso eu? “ pensei eu com meus botões de gênia.

No que eu penso isso, já saio pela janela, me lanço no ar e começo a voar. Era uma sensação maravilhosa (exceto pela umidade entrando nos meus cabelos, obviamente) e eu aproveitava pra dar altas piruetas e rasantes. De repente, no meio de uma pirueta mais radical, reconheço a voz de uma criança lá embaixo que apontava pro céu e dizia “Mami tá voando! Mami tá voando!”.

Não precisa dizer que a tal voz era do Nicolas né? E que eu me esborrachei toda lá embaixo ao cair na real e pensar “meu Deus! Eu tenho um filho e não deveria estar aqui voando!”. Só o que não dava pra suspeitar, é que a queda foi tão feia, mas tão feia, que eu empacotei.

Morri mesmo.

Daí, chegando no céu (naturalmente!) haviam duas portas. Dei uma olhada ao redor pra ver se via alguém que pudesse me dar uma indicação de qual entrar, mas não tinha uma alma viva por lá (com o perdão do trocadilho). Então arrisquei abrir uma fresta na porta à minha esquerda. E o que eu vejo?

Uma mesinha na entrada com um martelo, bússola, lupa, botas e um coletinho transado. Logo da entrada já se percebia uma trilha bem íngreme que levava ao alto de uma montanha gigante, cercada por uma floresta densa e muito, muito úmida.

Pois já sentindo bolhas nos pés e meu cabelo dobrando de volume só de ver aquela cena estranhamente familiar, dei um passo pra trás, matei um carrapato no meu braço e resolvi dar uma espiada na outra porta…

Na entrada, também tinha uma mesinha, mas sobre esta, haviam pincéis, tintas, papel e umas pantufas com rodinhas de patins (tenho que lembrar que é sonho?). Olho pro lado e vejo uma trilha planiiiiinha de dar gosto que levava a uma imensa árvore frondosa por onde passava um rio cristalino cercado por montanhas nevadas e passarinhos sibilantes. Debaixo da árvore, vejo o Nicolas, dançando ao som de “borboletinha, tá na cozinha, fazendo chocolate para a madrinha…”.

Sem pensar duas vezes, entro, calço as pantufas e saio patinando. Sinto o vento seco batendo nos meus cabelos e penso: “yeaaahh!!!”. Logo em seguida, uma nova música começa a tocar:

“La-le-li-lo-lu ilustradora, é a Lu ilustradora!”*

Só podia ser um presságio…

Nisso, alguém entra pela porta. Era o Rafa**, todo ofegante, suado, picado de mosquitos, roupas desgrenhadas, amostras de rochas pesando dos bolsos do coletinho e um martelo na mão. Ele tinha acabado de sair da outra porta. Se aproxima então de mim e diz:

– Tá vendo, Lu? Não é porque você escolheu essa porta que você está obrigada a ficar aqui pra sempre! Curta sua nova escolha pelo tempo que desejar e quando você sentir que é hora, vá pra lá, pegue seu martelo e junte-se a mim de novo.

Com essas palavras, olhei pro seu pescoço e vi um carrapatinho andando todo serelepe. Com o olhar perdido em direção àquela paisagem bucólica levemente desfocada, eu digo:

– Com certeza, meu amor, com certeza…

E saí determinada, patinando com as pantufas pra pegar meus pincéis e tintas.

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Depois deste sonho revelador, você há de concordar comigo que eu não tive outra opção senão abraçar meu caminho artístico, criar um site pras minhas ilustrações e ainda chamá-lo de lalelilolu, né?

* Lembra da boneca Lu Patinadora?
** Rafa é meu marido, que também é geólogo, e ele tem um orgulho danado disso!